Sagarana é uma das obras que caem na Fuvest e em outros vestibulares de 2017. Ela é coletânea de contos escrita por João Guimarães Rosa e publicada em 1946. Os nove contos são ambientados no espaço ao qual Guimarães Rosa dedicou a sua escrita: o sertão de Minas Gerais. O nome da obra tem caráter híbrido. É formado pelos radicais “saga”, de origem germânica (significa “canto heroico”) e “rana”, de origem tupi (significa “espécie de”). Saiba mais nas análises e resumos a seguir.

Guimarães Rosa retorna ao vestibular da Fuvest anos depois da exigência da leitura de outra coletânea de contos, o livro Primeiras estórias. A preocupação com a linguagem e com a representação da cultura sertaneja mineira são os pontos altos da escrita deste autor. Além destas características, veremos também breves análises sobre cada um dos contos.

 

Análise geral

Com contos narrados em primeira e em terceira pessoa, esta coletânea de Guimarães Rosa representa os ideais desta fase, chamando a atenção do leitor para tudo o que pode acontecer no ambiente do sertão mineiro. Com o seu regionalismo universalizante, Rosa aborda tanto os elementos característicos de um local determinado quanto questões que transcendem o sertão, podendo atingir todo e qualquer leitor.

A obra é marcada pela manutenção da tradição da contação de “causos”. Vaqueiros, jagunços e até mesmo animais transmitem uns aos outros as histórias que circulam pelo sertão mineiro. Sagarana trata de temas simultaneamente específicos e amplos, confirmando a grandeza de Guimarães Rosa em sua abordagem das questões humanas.

Conheça também as principais figuras de linguagem para ajudar a interpretação desta obra.

 

Resumo dos contos de Sagarana 

 

O burrinho pedrês 

Capa de Sagarana

Capa de uma das edições de Sagarana de Guimarães Rosa

A velhice, apresentada de forma nada romântica, é o foco das discussões deste conto. O burrinho Sete-de-Ouros, que já é bastante velho, pertence ao fazendeiro Major Saulo. Em uma ação que visava à transferência de muitos bois para outra cidade, o poderoso dono de terras organiza a travessia do gado. Seus comandados, vaqueiros já muito experientes, conduzem a passagem dos animais. Sete-de-Ouros, mesmo sendo já velho e fraco por conta da idade, acompanha o grupo.

A ida é marcada pela facilidade na passagem. Porém, no retorno dos vaqueiros uma forte chuva faz com que um riacho transborde. Sete-de-Ouros, justamente por conta da idade, não luta contra a força das águas, deixando-se levar pela correnteza. O saldo da ação é a morte de vários vaqueiros. Sete-de-ouros sobrevive à enchente.

 

A volta do marido pródigo (Traços biográficos de Lalino Salãthiel)

Numa espécie de ode à malandragem, este conto surge como uma releitura da passagem bíblica que retrata as desventuras do filho pródigo. No texto de Guimarães Rosa, Lalino Salãthiel, também chamado de Laio, mesmo sendo casado com Maria Rita, sonha em viver aventuras no Rio de Janeiro. Malandro que era, certo dia decide deixá-la e parte para a vida carioca.

Após vivenciar ao máximo a boemia carioca, retorna ao sertão de Minas gerais e encontra Maria Rira casada com Ramiro, um espanhol que vivia nas redondezas. A fim de conquistar o perdão de sua esposa, Laio toma partido em uma disputa política que ocorria na região. Após a vitória do candidato o qual apoiava, Lalino consegue o perdão de Maria Rita. Além disso, ele influencia o vencedor das eleições (Major Anacleto) a criar uma lei que expulsava todos os estrangeiros do local, livrando-se de Ramiro.  

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Claro Enigma

Sarapalha

Conto marcado pela presença da doença e da ausência de perdão. Sarapalha apresenta a história de dois primos, Ribeiro e Argemiro, ambos à beira da morte, vivendo em uma pequena casa no sertão mineiro. A maleita (malária) é vilã e espectadora.

Após uma série de diálogos marcados pelo saudosismo, Ribeiro revela que a sua maior dor não é decorrente da doença, e sim do abandono por parte de Maria Luísa, sua esposa. Argemiro, diante da tristeza do primo e amigo, decide revelar-lhe um segredo: no passado, fora apaixonado por Maria Luísa. Apesar de nunca ter ocorrido nada entre os dois – Argemiro inclusive deixa claro que Maria Luísa jamais ficara sabendo deste amor secreto – Ribeiro não consegue lidar com a informação, expulsando o primo Argemiro de sua casa. O cão que lhes fazia companhia, chamado Jiló, não sabe se permanece com Ribeiro ou se acompanha Argemiro. Acaba ficando. Argemiro sai, caminhando com extrema dificuldade devido aos sintomas da malária. As terras distantes da casa de Ribeiro seriam o seu local de morte.  

 

Duelo

Ações intempestivas e desejo de vingança marcam este conto. Turíbio Todo é casado com Dona Silvina. Após retornar de uma pescaria, Turíbio surpreende sua mulher com outro homem. Tratava-se de Cassiano Gomes, ex-militar e figura conhecida na região. Turíbio Todo, tomado por intenso ciúme e sentimento de desonra, decide se vingar, planejando o assassinato de Cassiano. Porém, a ação não sai conforme o esperado. Turíbio se confunde e acaba matando o irmão de Cassiano. Ele foge após o ocorrido. Cassiano caça Turíbio incessantemente, mas sem sucesso.

Tempos depois, o ex-militar adoece, sendo cuidado por Timpim Vinte-e-Um. Ambos se tornam amigos muito próximos. Antes de falecer, Cassiano conta a Timpim Vinte-e-Um sobre o ocorrido com seu irmão e lhe confessa o desejo de vingança em relação a Turíbio. Timpim Vinte-e-Um, por ter sido muito ajudado por Cassiano, guarda na memória e no coração o desejo de seu amigo. Turíbio Todo, ao ter notícias da morte de Cassiano, retorna ao sertão mineiro, sendo morto por Timpim Vinte-e-Um, que pôde, enfim, realizar do desejo do amigo Cassiano.        

 

Minha gente

É possível estabelecer uma analogia entre este conto e o poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, disponível na obra Antologia Poética, visto que ambos os textos são marcados por uma série de encontros e desencontros amorosos. O conto, narrado por um inspetor escolar, tem como espaço principal a fazendo do Tio Emílio.

Ao reencontrar a prima Maria Irma, seu romance da infância, o narrador decide tentar reviver este amor do passado. Porém, a moça tenta fazer com que o narrador volte os olhos para a amiga Armanda, que por sua vez era noiva de Ramiro. Há aqui uma correlação interessante, uma vez que o narrador, sendo um admirador do jogo de xadrez, se vê como uma peça sendo manipulada nas estratégias de Maria Irma. Em um final digno de uma partida de xadrez, Maria Irma atinge seu objetivo, aproximando Armanda e o narrador e deixando Ramiro livre para uma outra relação (Maria Irma o amava em segredo). O casamento duplo encerra a narrativa.       

 

São Marcos

Conto que coloca em xeque a descrença diante da cultura popular do sertão mineiro. Izé, o narrador, constantemente debocha das crenças locais, desdenhando daqueles que alimentam a fé no desconhecido. Sempre que passava diante da casa de João Mangalô, conhecido feiticeiro da região, fazia piadas e tirava sarro, o que deixava Mangalô incomodado. Certo dia, durante uma caminhada, Izé simplesmente perde a visão, deixando de enxergar completamente. A cegueira repentina o deixa aflito. Tal aflição o faz lembrar de uma oração: a oração de São Marcos, popularmente conhecida como elemento poderoso, talvez capaz de ajudá-lo. Através do tato e audição, consegue chegar a uma casa. Era a casa de João Mangalô. Quando Izé se aproxima do feiticeiro, recupera a visão e percebe que no local havia um boneco que havia sido vendado por João Mangalô. A despedida é marcada pela sensação de que a credulidade de Izé havia sido testada.  

 

Corpo fechado

Mais uma vez, a crença popular é apresentada como elemento central. Manuel Fulô vive na região de Laginha e é noivo de Das Dores. Certo dia, Das Dores chama a atenção de um valentão que circulada por Laginha. Tratava-se de Targino, que, sem cerimônias, anuncia a Manuel Fulô que irá passar uma noite com sua noiva, Das Dores, antes que eles se casem. Fulô, indignado com a ofensa, recorre a Antônio das Pedras-Águas, conhecido feiticeiro da região de Laginha. Tonico, como era chamado, realiza um ritual de corpo fechado com Manuel Fulô, que agora se vê encorajado a enfrentar Targino. Ao se enfrentarem numa briga de vida  ou morte, Fulô desvia dos tiros dados por Targino e mata o valentão a golpes de uma pequena faca.

 

Conversa de bois

Tradição e senso de justiça são as marcas deste conto. Tiãozinho é um menino que vive o fardo de ver seu pai doente e sua mãe, já sem qualquer ímpeto de cuidar do marido moribundo, vivendo um amor com outro homem. Este homem é Agenor Soronho, que trabalhava como carreiro (condutor de carros de bois). Tiãozinho ajuda Agenor no seu ofício, porém o faz a contragosto, visto que o namorado de sua mãe o trata de forma bruta/cruel. Vendo-se na condição de padrasto de Tiãozinho, Agenor Soronho aplica sobre a criança todo o tipo de maldade.

Ao longo do conto, os bois que davam tração ao carro guiado por Agenor conversam entre si, contam histórias e refletem sobre a vida. Em meio a estas reflexões, chegam à conclusão de que deveriam agir em prol de Tiãozinho e também de si mesmos. Após organizarem o plano, colocam-no em prática. Juntos, os bois dão um solavanco no carro e derrubam Agenor, que morre quando as rodas passam por cima dele. O conto se encerra com a mescla entre o desespero de Tiãozinho e os mugidos vitoriosos dos bois.   

 

A hora e a vez de Augusto Matraga

Redenção através da religião é o ponto central deste conto. O fazendeiro Augusto Esteves é Matraga, poderoso dono de terras que gasta seu dinheiro com jogo e prostitutas. É casado com Dionóra, numa relação marcada pelos maus-tratos por parte de Augusto Matraga. Numa sequência de infortúnios, Matraga descobre que sua esposa havia indo embora com outro homem ao mesmo tempo em que seus empregados (capangas) o abandonam, tomando partido do seu inimigo, Major Consilva. Nhô Augusto, como era chamado, decide ir até Consilva reclamar seus antigos empregados. Dali partiria em busca de Dionóra. Porém os planos não se concretizam. Major Consilva dá ordens para que seus capangas deem uma surra em Matraga. Após apanhar quase até a morte, Augusto é levado para a estrada e antes de receber o golpe final, junta suas últimas forças para se atirar em um barranco, sendo dado como morto.  

Sendo posteriormente encontrado por um casal de negros, Matraga se recupera após longo período. Durante esse processo, ele reflete sobre a própria existência e as decisões que tomou ao longo vida. Além disso, Augusto passa a se dedicar à religião católica. Já recuperado, Matraga conhece Joãozinho Bem-Bem, temido cangaceiro que passava pela região com o seu bando. Bem-Bem acaba convidando Augusto para que passe a fazer parte de seu bando, mas Augusto recusa.

Tempos depois, Matraga deixa o local onde se recuperou e foi cuidado e parte, buscando encontrar a si mesmo. Reencontra Joãozinho Bem-Bem numa situação delicada. O cangaceiro estava prestes a matar um idoso. Nesse contexto Matraga se vê diante da oportunidade de se redimir pelas ações do passado. Enfrenta Bem-Bem, matando-o, mas também sai gravemente ferido do confronto. Morre diante dos transeuntes, imenso na certeza de que havia cumprido a sua missão na Terra. Estava redimido.    

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Memórias Póstumas de Brás Cubas
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Vidas Secas
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Contexto histórico de Sagarana

Guimarães Rosa, autor de Sagarana

Guimarães Rosa, autor de Sagarana

O mineiro João Guimarães Rosa é considerado um dos mais importantes escritores de Língua Portuguesa. Dedicou-se à abordagem do local que conhecia como poucos, o estado de Minas Gerais. Com um olhar singular para a cultura do sertão, retrata em sua obra elementos até então desconhecidos para o restante do Brasil.

1945 é um ano sintomático do ponto de vista histórico. Encerrava-se a Segunda Guerra Mundial, iniciada oficialmente em 1939. No contexto brasileiro também findava um período de forte tensão social, o Estado Novo (regime político criado por Getúlio Vargas). Juntamente com Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa faz parte da chamada terceira fase do Modernismo no Brasil.

O encerramento (ao menos temporário) das fortes tensões que assolavam o Brasil e o mundo trouxe novos tons às artes, com destaque para a pintura e para a literatura. A sensação de alívio que pairava no ar trazia consigo um novo modelo literário, dedicado a análises mais introspectivas e complexas do ser humano.

A obra e o Modernismo

Sagarana faz parte da terceira fase do Modernismo no Brasil, período no qual a literatura foi marcada pela abordagem de temas metafísicos, introspectivos. As análises sociais – muito intensas ao longo da fase anterior – dão lugar às análises pessoais. Se antes as ações dos personagens eram o foco dos acontecimentos, agora os pensamentos, sentimentos, expectativas, angústias e conflitos tomam conta das narrativas.

A linguagem extremamente representativa também é um dos elementos associados ao Modernismo. Guimarães Rosa traz para a literatura elementos típicos da fala do sertanejo mineiro, tornando as narrativas profundamente alegóricas. A ideia de uma literatura essencialmente brasileira – um dos pressupostos do Modernismo – é colocada em prática pelo autor.

Agora que você já leu o resumo e a análise sobre Sagarana, leia também todos os resumos e análises de livros que caem em vestibulares como os da Fuvest aqui. Assista também a uma aula sobre terceira fase do Modernismo do Geekie Games.

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Questões sobre Sagarana nos vestibulares

(FUVEST 2007) “Porque todos os córregos aqui são misteriosos – somem-se solo a dentro, de repente, em fendas de calcário, viajando, ora léguas, nos leitos subterrâneos, e apontando, muito adiante, num arroto ou numa cascata de rasgão….”
João Guimarães Rosa, Sagarana, 2001.

Neste trecho, o autor
a) utiliza o sentido figurado para descrever como ocorre a infiltração das águas nos diversos tipos de rochas.
b) utiliza-se da metáfora “córregos misteriosos” para retratar o desconhecimento dos cientistas a respeito dos rios subterrâneos.
c) relata o turbilhão de águas superficiais, comum em áreas de terrenos cristalinos e chuvas torrenciais.
d) descreve uma situação inexistente de processos fluviais com a intenção de utilizá-la como recurso literário.
e) descreve, em linguagem literária, como é o comportamento de águas subterrâneas e superficiais em rochas calcárias.

Resposta: E)

(FUVEST 2009)

Vestindo água, só saído o cimo do pescoço, o burrinho tinha de se enqueixar para o alto, a salvar também de fora o focinho. Uma peitada. Outro tacar de patas. Chu-áa! Chu-áa… — ruge o rio, como chuva deitada no chão. Nenhuma pressa! Outra remada, vagarosa. No fim de tudo, tem o pátio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois o pasto: sombra, capim e sossego… Nenhuma pressa. Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo, e faz medo, não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão. É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada, na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água, bem com o escuro, filho do fundo, poupando forças para o fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de hora. Assim.

João Guimarães Rosa. O burrinho pedrês, Sagarana.

Em trecho anterior do mesmo conto, o narrador chama Sete-de-Ouros de “sábio”. No excerto, a sabedoria do burrinho consiste, principalmente, em

a) procurar adaptar-se o melhor possível às forças adversas, que busca utilizar em benefício próprio.
b) firmar um pacto com as potências mágicas que se ocultam atrás das aparências do mundo natural.
c) combater frontalmente e sem concessões as atitudes dos homens, que considera confusas e desarrazoadas.
d) ignorar os perigos que o mundo apresenta, agindo como se eles não existissem.
e) escolher a inação e a inércia, confiando inteiramente seu destino às forças do puro acaso e da sorte.