Vidas Secas é a obra mais conhecida do escritor Graciliano Ramos. É também o livro mais representativo de uma temática conhecida como “romance de 30” ou “neorrealismo regionalista”, que predominava na segunda fase do modernismo brasileiro. Vidas secas é um dos livros indicados para leitura nos vestibulares de 2017, 2018 e 2019 da Fuvest. Esta indicação também é referência para outros vestibulares, como Unesp, Unifesp, Puc e Mackenzie. A seguir, leia a análise, o resumo e confira questões da Fuvest.

 

Contexto histórico da obra

Vidas Secas foi escrito e publicado em 1938, logo após o seu autor ser libertado da prisão. Graciliano Ramos foi preso em 1937 sob acusações vagas de defender ideologias comunistas. Na década de 1930, o mundo passava por uma grave crise financeira. Na Europa, acirravam-se os conflitos que dariam origem à Segunda Guerra Mundial, em 1939. Da mesma forma, crescia a tensão entre duas ideologias opostas: o capitalismo e o socialismo. No Brasil, sob o governo de Getúlio Vargas, iniciava-se uma “caça aos comunistas”, que levaria muitos artistas e intelectuais ao exílio ou à prisão.

Quando Graciliano Ramos foi preso em 1937, ele já era um escritor reconhecido, com três obras publicadas. Ao sair da prisão, procurou serviço como jornalista em um jornal do Rio de Janeiro. O editor lhe ofereceu a oportunidade de publicar um texto curto (um conto).

Graciliano escreveu então um conto chamado Baleia, que contava o sofrimento e morte de uma cachorrinha de uma família de retirantes, no sertão nordestino. Com o sucesso da publicação, o jornal encomendou outros contos no mesmo estilo. Graciliano escreveu então um conto para cada membro daquela família: o pai, a mãe e os dois filhos. Nascia assim sua obra mais famosa: Vidas Secas, que manteve a estrutura de capítulos-contos, conforme veremos na análise.

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Resumo do enredo e personagens de Vidas Secas 

Livro Vidas Secas

Capa de uma das edições de Vidas, com a cachorra Baleia

Vidas secas narra a história de uma família de retirantes nordestinos em sua constante luta pela sobrevivência. No primeiro capítulo (“Mudança”) vemos o pai (“Fabiano”), a mãe (“Sinhá Vitória”), os dois filhos (“menino mais velho” e “menino mais novo”) junto com a cachorrinha da família (“baleia”) e um papagaio (que será morto para servir de alimento) fugindo de uma seca que assola a região. 

Eles andam em direção ao sul, sem um destino certo, movidos pela esperança de chegar a um lugar onde encontrem água e comida para sobreviver. Eles acabam chegando a uma fazenda abandonada onde encontram um pouco de água e algumas raízes para comer. Como há sinais de que choverá nos próximos dias, decidem ficar e esperar o dono da fazenda retornar com o gado. Fabiano é vaqueiro e acaba aceitando cuidar do gado do dono da terra.

Segue-se então uma sequência de fatos que vão mostrando ao leitor toda a miséria desta família. Fabiano é humilhado e roubado em seus direitos pelo dono da fazenda, a quem chama de patrão. A família vive em condições animalescas. As crianças brincam na lama com os animais. Não estudam e não têm condições nem mesmo de aprender a linguagem básica, uma vez que os pais quase não falam.

Fabiano tem uma enorme dificuldade de raciocinar e se expressar de maneira lógica e organizada. Comunica-se com gestos e grunhidos, o que o aproxima muito de um bicho, como ele mesmo reconhece. Quando vão para a cidade (capítulo “festa”), sentem-se deslocados e assustados. Fabiano é preso e surrado como um animal por capricho de um “soldado amarelo”

Paralelo ao drama físico-social desta família, acompanhamos o seu drama psicológico. Fabiano vive a angústia de se saber inferior por não conseguir falar com clareza, questionando-se constantemente se é um bicho ou um homem. Sinhá Vitória vive o drama da constante frustração do sonho de ter uma cama de lastro (metáfora para o desejo de ter um lugar definitivo e seu para viver) e os meninos vivem a angústia de não terem como satisfazer a sua curiosidade natural (capítulo “inferno”) ou a falta de perspectiva para o futuro (capítulo “menino mais novo”)

 Vale ressaltar aqui a figura do seu “Tomás da bolandeira”. Esta personagem aparece apenas nas lembranças do casal. Era um vizinho da fazenda anterior, onde eles viviam até a seca os expulsar. Seu Tomás era um homem “letrado”. Sabia ler e falava “difícil”. Possuía uma cama de lastro, que despertara o desejo de Sinhá Vitória, e uma bolandeira, espécie de prensa rústica de moer cana.

Seu Tomás também é um homem rústico e pobre do interior. Mesmo assim, serve de referência ao casal, tanto no aspecto cultural quanto social. Fabiano deseja ter a capacidade de “falar” como o seu Tomás da Bolandeira. Sinhá Vitória deseja ter a sua estabilidade financeira (simbolizada na cama de lastro) para largar aquela vida nômade de ter de se mudar a cada período de seca.

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A estrutura cíclica 

No último capítulo (“fuga”), ocorre um novo período de seca e a família é obrigada novamente a fugir em direção ao sul para sobreviver. Dessa forma, temos a estrutura cíclica desta narrativa. O livro começa e termina com a família na mesma situação de retirantes, como se tivessem voltado ao mesmo ponto de partida.

Aqui vale ressaltar que esta estrutura cíclica da narrativa tem um forte aspecto simbólico. Graciliano Ramos está chamando a atenção do leitor para o drama dos retirantes nordestinos, que se repete ciclicamente, não apenas na questão da seca, mas das misérias e injustiças sociais que vão passando de geração para geração. O drama vivido por Fabiano já foi vivido por seu pai, seu avô e será repetido pelos seus filhos.

Para entender melhor esta estrutura cíclica, uma das principais características de Vidas Secas, assista à videoaula abaixo:

 

O foco narrativo de Vidas Secas

Vidas secas é narrado em terceira pessoa, ou seja, possui um narrador externo onisciente. No entanto, é muito comum o leitor ter a impressão de que a narrativa é feita pelas personagens do livro, em primeira pessoa. Isso acontece porque o narrador conta a história sob o ponto de vista da personagem focalizada naquele momento, explorando assim, além do drama social, o drama psicológico.

A técnica narrativa mais importante dessa obra é o uso intenso do discurso indireto livre. Trata-se de uma forma de mostrar a fala ou pensamento das personagens inseridos diretamente no discurso do narrador. Se o leitor não estiver atento, pode não perceber que aquela fala é, na verdade, da personagem. Trata-se de uma técnica rara e difícil de ser empregada pelo autor e percebida pelo leitor. São comuns questões nos vestibulares que pedem para o aluno identificar a presença do discurso indireto livre em trechos de Vidas Secas.

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Análise da obra de Graciliano Ramos

Graciliano Ramos é um dos maiores escritores da literatura de língua portuguesa. É marcado por uma visão socialista, fruto de experiências concretas da realidade social nordestina e profunda reflexão intelectual. Seus livros denunciam as injustiças sociais sem deixar de explorar também o drama psicológico de seus personagens.

Essa denúncia de mazelas sociais ao lado de reflexões sobre angústias psicológicas tornam suas obras universais, extrapolando os limites regionais e/ou culturais que atingem muitos escritores brasileiros.

Graciliano Ramos é dono de um estilo marcado pela concisão e secura da linguagem. Suas frases são curtas e objetivas, sem adjetivação desnecessária e supérflua.

A crítica aponta um casamento perfeito entre o estilo seco do autor e a temática de secura e carência da obra Vidas Secas.

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Escola Literária: Modernismo

Vidas Secas pertence ao modernismo brasileiro. Mais especificamente, pertence ao segundo tempo do modernismo brasileiro, período compreendido entre 1930 e 1945. Nesse período ocorre uma retomada das características do realismo-naturalismo do século XIX. Ao mesmo tempo, temos uma preocupação dos autores em abordar aspectos da realidade sociocultural da sua região. Temos então o neorrealismo regionalista.

Também é característica desse período a ascensão da ideologia socialista, que acabou influenciando muitos artistas da época. Dessa forma, também é comum a denominação romance socialista ou romance de trinta para designar as narrativas produzidas na década de 1930.

 

Semelhanças entre Vidas Secas e Sagarana 

Os vestibulares costumam cobrar semelhanças e diferenças entre as diversas obras que compõem a lista de leituras obrigatórias.

Nesse caso, podemos observar que tanto Vidas Secas quanto Sagarana tem um forte componente regionalista. Tanto na realidade física quanto na realidade sociocultural, observamos aspectos muito pitorescos do sertão nordestino (Vidas Secas) e do interior mineiro (Sagarana).

A abordagem dessas características, no entanto, revela também uma diferença fundamental. O regionalismo de Vidas Secas é físico, concreto, fruto de uma visão realista. Já em Sagarana, temos um regionalismo mágico, marcado pelo misticismo e religiosidade popular que extrapolam a interpretação realista e racional dos seus contos.

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Você sabia existe um filme inspirado na obra Vidas Secas? A direção é de Nelson Pereira dos Santos. Assista ao trailer abaixo.

Questões sobre Vidas Secas nos vestibulares

(FUVEST 2008) Considere as seguintes comparações entre Vidas secas e Iracema:

I. Em ambos os livros, a parte final remete o leitor ao início da narrativa: em Vidas secas, essa recondução marca o retorno de um fenômeno cíclico; em Iracema, a remissão ao início confirma que a história fora contada em retrospectiva, reportando-se a uma época anterior à da abertura da narrativa.

II. A necessidade de migrar é tema de que Vidas secas trata abertamente. O mesmo tema, entretanto, já era sugerido no capítulo final de Iracema, quando, referindo-se à condição de migrante de Moacir, “o primeiro cearense”, o narrador pergunta: “Havia aí a predestinação de uma raça?”

III. As duas narrativas elaboram suas tramas ficcionais a partir de indivíduos reais, cuja existência histórica, e não meramente ficcional, é documentada: é o caso de Martim e Moacir, em Iracema, e de Fabiano e sinha Vitória, em Vidas secas.

Está correto o que se afirma em

a) I, somente.
b) II, somente.
c) I e II, somente.
d) II e III, somente.
e) I, II e III.

Resposta: C) I e II, somente.

(FUVEST 2009)

Quando nos apresentam os homens vistos pelos olhos dos animais, as narrativas em que aparecem o burrinho pedrês, do conto homônimo (Sagarana), os bois de “Conversa de bois” (Sagarana) e a cachorra Baleia (Vidas secas) produzem um efeito de

a) indignação, uma vez que cada um desses animais é morto por algozes humanos.
b) infantilização, uma vez que esses animais pensantes são exclusivos da literatura infantil.
c) maravilhamento, na medida em que os respectivos narradores servem-se de sortilégios e de magia para penetrar na mente desses animais.
d) estranhamento, pois nos fazem enxergar de um ponto de vista inusitado o que antes parecia natural e familiar. e) inverossimilhança, pois não conseguem dar credibilidade a esses animais dotados de interioridade.

Resposta: D)

(FUVEST 2015)

Apesar das diferenças notáveis que existem entre estas obras, um aspecto comum ao texto de Capitães da Areia, considerado no contexto do livro, e Vidas secas, de Graciliano Ramos, é

a) a consideração conjunta e integrada de questões culturais e conflitos de classe.
b) a reprodução fiel da variante oral popular da linguagem, como recurso principal na caracterização das personagens.
c) o engajamento nas correntes literárias nacionalistas, que rejeitavam a opção por temas regionais.
d) o emprego do discurso doutrinário, de caráter panfletário e didatizante, próprio do “realismo socialista”.
e) o tratamento enfático e conjugado da mestiçagem racial e da desigualdade social.

Resposta: A)