Iracema é a obra mais conhecida da literatura romântica nacionalista do escritor José de Alencar. É também o livro mais representativo de uma temática conhecida como “romance indianista”, que fazia parte da produção do romantismo brasileiro, na primeira metade do século XIX. Ele é um dos livros indicados para leitura nos vestibulares de 2017, 2018 e 2019 da Fuvest. Esta indicação também é referência para outros vestibulares, como Unesp, Unifesp, Puc e Mackenzie. Leia o resumo a seguir para saber mais sobre a obra.

 

Contexto histórico da obra

A obra foi escrita e publicado em 1865 e trazia o subtítulo de Lenda do Ceará. Seu autor, José de Alencar, era cearense de origem. Ele confessava, em carta, que havia se inspirado em uma lenda que ouvira quando criança sobre como surgira o “primeiro cearense” para criar sua obra.

O Brasil vivia então o auge da euforia nacionalista que se iniciara com a independência em 1922 e tomara corpo com a implantação da estética romântica, oficialmente, a partir de 1936. Os escritores românticos, tanto da prosa quanto da poesia, assimilaram os ideais nacionalistas do romantismo europeu e os adaptaram as condições peculiares de nossa realidade.

Surge então a chamada “cor local”, particularidade específica do romantismo brasileiro que consiste em valorizar a nossa natureza tropical, a nossa linguagem impregnada de influências de dialetos africanos e expressões indígenas e a idealização do índio, que era elevado a condição de herói, nos moldes dos cavaleiros medievais europeus.

Destaca-se como a principal produção deste período na busca de uma identidade nacional nos moldes da “cor Local” do nosso nacionalismo romântico.

>> A obra é domínio público. Leia o pdf de gratuitamente.

Resumo do enredo de Iracema 👩🏾🌴

Narra a história de um amor improvável entre uma índia e um colonizador português, no início do processo de colonização efetiva da costa brasileiro, no século XVII. Desse amor nasceria o primeiro mestiço, símbolo de uma nova raça que seria o povo brasileiro.

Iracema é uma índia da nação Tabajara. Ela é filha do pajé da tribo (Araquém) e está prometida como esposa ao chefe guerreiro (Irapuã). A moça também é detentora do segredo da Jurema. Ela produz uma bebida alucinógena que é dada aos guerreiros em rituais específicos. Este segredo está condicionado à sua virgindade. Ela não pode se entregar a nenhum homem antes de passar a outra virgem o segredo de fabricação dessa bebida.

Martim é um guerreiro português que vive entre a tribo Pitiguara e tem a missão de fiscalizar a costa cearense contra as invasões estrangeiras. Junto com seu fiel amigo, Poti, lidera os guerreiros pitiguaras nas batalhas contra invasores, principalmente holandeses. Os pitiguaras, que vivem na costa cearense, são inimigos naturais dos tabajaras, que vivem mais para o interior.


Um dia, Martim se perde na mata e acaba encontrando Iracema, que estava caçando. Como os brancos são inimigos de seu povo, ela atira uma flecha, ferindo o homem no ombro. Martim não reage à agressão por ser uma mulher. Ela então leva o português ferido para sua cabana onde, protegido pela lei da hospitalidade, ele é cuidado pelo pajé.

Nasce então uma forte atração entre eles. O guerreiro branco, no entanto, tem consciência da

Capa da obra Iracema de José de Alencar

Capa da obra de José de Alencar

impossibilidade de sua união com uma índia de uma tribo inimiga. Pede assim a bebida alucinógena à moça, para dormir e não ceder à tentação. Sob efeito da bebida ele tem um sonho onde chama a moça para se deitar com ele na rede. Ela obedece e os dois acabam tendo relações. Nas palavras de Alencar “Tupã já não tinha mais sua virgem nos campos dos tabajaras”

Ameaçados pelos guerreiros tabajaras liderados por Irapuã, que quer “beber o sangue do guerreiro branco”, Eles fogem para encontrar Poti e os guerreiros pitiguaras. Após uma violenta batalha entre as duas tribos, ela confessa a Martim que não é mais virgem e que se voltar para sua tribo será morta. Ela também não pode viver entre os pitiguaras, seus inimigos.

Martim decide então construir uma cabana na praia cearense onde passa a viver com Iracema. Pouco tempo depois, ela engravida e esse filho é mais uma amarra para Martim, que sonha com sua terra natal mas não tem coragem de abandonar a mulher e o filho, da mesma forma que não pode leva-los para a Europa.

Começa então o martírio de Iracema. Longe da família e dos amigos, ela passa muito tempo sozinha, enquanto Martim faz suas expedições fiscalizando toda a costa. Quando ele está com ela, uma nuvem de tristeza cobre seu rosto enquanto seus olhos buscam Portugal na linha do horizonte. Ela sente-se culpada pela tristeza do amado e conclui que a sua morte é a única forma de libertá-lo. Começa então a definhar de tristeza e solidão. Quando o filho nasce, ela o chama de Moacir, que significa “filho da dor”, e morre.

Martim a enterra na sombra de uma palmeira, pega o filho, primeiro representante de uma nova raça, e parte para Portugal. Alguns anos mais tarde ele volta liderando um grupo de colonos. No lugar onde ele vivera o seu amor com a moça, ele funda a primeira cidade do Ceará.

 

O foco narrativo

A história é narrada em terceira pessoa, ou seja, possui um narrador externo onisciente. A narrativa não é linear. O primeiro capítulo mostra a conclusão da história, com o Martim partindo da costa cearense levando consigo o filho que tivera. A história de amor da índia com o português será contada, em progressão cronológica, a partir do segundo capítulo. Para uma melhor compreensão, vale reler o primeiro capítulo após terminar a leitura do livro.

A técnica narrativa mais importante dessa obra é o uso intenso do que a crítica chama de prosa poética. Embora a narrativa esteja estruturada em forma de prosa, ela possui ritmo, musicalidade e linguagem próprias da poesia. Dessa forma, o livro une a beleza estética e sonora da poesia com os elementos típicos da narrativa, como enredo e personagens.

Leia mais resumos:
Vidas Secas
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Capitães da Areia
Mayombe

Metáforas 

Outro aspecto importante desta obra é a simbologia embutida em sua narrativa. A história de amor simboliza o surgimento do povo brasileiro. A índia representa a América virgem (seu nome é um anagrama da palavra américa); Martim representa a Europa colonizadora. Da união do índio nativo americano com o colonizador branco europeu nasce o povo brasileiro, representado pelo filho Moacir.

Vale destacar aqui também a importância das notas de rodapé, feitas pelo próprio autor. Estas notas trazem informações importantes sobre expressões e costumes indígenas referidos na narrativa. Muitas questões de vestibular tomam por base estas informações das notas de rodapé.

 Para informações mais detalhadas do foco narrativo, linguagem e simbologia da obra, assista à videoaula abaixo:

Veja também: 26 figuras de linguagem

Análise da obra de José de Alencar

José de Alencar foi o primeiro grande escritor brasileiro. Escreveu diversos romances e algumas peças de teatro. Além de escritor, teve larga atuação como deputado no parlamento da época. Tanto na política quanto na literatura, sua obra ficou marcada por um nacionalismo intenso e pragmático.

 Junto com outros românticos, Alencar empenhou-se muito para despertar um sentimento patriótico nos brasileiros, sempre destacando, por vezes de forma ingênua, as virtudes nacionais, principalmente nossas riquezas naturais.

 Nesse sentido, é sua obra máxima. Uma narrativa que mistura aventuras épicas com lirismo poético na criação do mito heroico do nascimento do povo brasileiro.

 

Escola Literária 📚

Essa obra de Alencar pertence ao romantismo brasileiro, que foi a primeira escola literária do Brasil após sua independência. Por isso mesmo, das características românticas, o nacionalismo é a que foi mais explorada pelos autores brasileiros.

Ver aula sobre romantismo

No romantismo, predomina uma visão idealizada da mulher, sempre associada com a natureza. Ela é descrita em constantes comparações com a beleza exuberante das florestas brasileiras. Tanto que as figuras de linguagem mais presentes neste livro são a símile (comparação) e a metáfora.

 Outra característica típica do romantismo presente neste livro é o amor trágico. As histórias românticas terminam ou em finais felizes ou em finais trágicos, com a morte da protagonista, como é o caso deste livro.

Questão sobre o livro no vestibular

(FUVEST 2009) Em um poema escrito em louvor de Iracema, Manuel Bandeira afirma que, ao compor esse livro, Alencar
“[…] escreveu o que é mais poema
Que romance, e poema menos
Que um mito, melhor que Vênus.”

Segundo Bandeira, em Iracema,

a) Alencar parte da ficção literária em direção à narrativa mítica, dispensando referências a coordenadas e personagens históricas.
b) o caráter poemático dado ao texto predomina sobre a narrativa em prosa, sendo, por sua vez, superado pela constituição de um mito literário.
c) a mitologia tupi está para a mitologia clássica, predominante no texto, assim como a prosa está para a poesia. d) ao fundir romance e poema, Alencar, involuntariamente, produziu uma lenda do Ceará, superior à mitologia clássica.
e) estabelece-se uma hierarquia de gêneros literários, na qual o termo superior, ou dominante, é a prosa romanesca, e o termo inferior, o mito.

Resposta: B)