Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, é um dos livros que caem no vestibular da Fuvest 2017. A lista de leituras obrigatórias serve de base ainda para vestibulares como a Unesp, PUC, Mackenzie, UNIFESP e outras universidades. A seguir, veja uma análise de Claro Enigma, saiba como ler o livro da melhor maneira possível e confira também as dicas para ler poesias em geral.

 

Principais características de Claro Enigma

A obra e o Modernismo:
A linguagem utilizada nos poemas de Claro Enigma é culta, elevada, destoando da proposta moderna de aproximar a linguagem literária da linguagem coloquial, forçando você a consultar o dicionário com frequência.

Da mesma forma, os poemas de Claro Enigma, na sua maioria, retomam as formas clássicas da poesia, como a estrutura de Soneto, os versos com rimas e métricas regulares, além de elaborados recursos linguísticos.

Claro Enigma se caracteriza como uma das obras mais eruditas e herméticas (de difícil leitura) de Drummond. Dessa forma, ter paciência e persistência é fundamental para a abordagem destes poemas, somados à observação do contexto histórico e das características de estilo apresentadas acima.

Claro Enigma é composto por 41 poemas divididos em seis partes.

Claro enigma cai no vestibular

Estrutura e características de Claro Enigma, obra da Literatura Brasileira que cai no vestibular da Fuvest

O autor Carlos Drummond de Andrade

Literatura brasileira resumo

Carlos Drummond de Andrade, autor de Claro Enigma, que compõe a lista de livros que caem no vestibular da Fuvest

Carlos Drummond de Andrade é um dos maiores poetas da língua portuguesa. Nascido em Itabira, Minas Gerais, fez da sua terra natal um tema constante de suas poesias. Em Claro Enigma, temos poemas como “Evocação Mariana”, “Estampas de Vila Rica” e “Morte das casas de Ouro Preto” que comprovam isso. O autor escreveu centenas de poemas publicados ao longo de mais de sessenta anos de vida literária.

A crítica literária costuma dividir sua obra em três fases distintas:

Primeira fase:
Identificação com a irreverência e o humor da primeira geração modernista com o predomínio do poema curto e o verso livre.

Segunda fase:
Poesia engajada nos conflitos político sociais da década de 30 até meados da década de 40 do século XX.

Terceira fase:
Poesia mais complexa e erudita voltada para o questionamento filosófico existencial com uma visível retomada dos modelos formais clássicos.

 

O contexto histórico de Claro Enigma

O livro Claro Enigma, publicado em 1951, pertence a esta terceira fase. O mundo vivia sob o temor da Guerra Fria, que colocava as duas grandes potências da época, União Soviética e Estados Unidos, em uma crescente corrida por armas nucleares.

Os horrores físicos da 2ª Guerra Mundial foram substituídos pela angústia de uma possível guerra nuclear. A arte, de uma forma geral, abandonava os temas sociais para se voltar para os temas metafísicos, questionando o sentido do amor, da poesia e da própria existência.

Drummond, que na fase anterior conclamava em seus poemas que as pessoas dessem as mãos e lutassem contra as injustiças sociais, agora parece mergulhar em um questionamento metafísico de forte teor pessimista. A imagem da noite, sempre associada à ideia da morte, é constante ao longo dos poemas que compõem Claro Enigma.

 

Análise do poema Dissolução, de Claro Enigma

O primeiro poema do Livro, “Dissolução”, começa com os seguintes versos:

“Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar
aceito a noite”

Primeiro temos a constatação da nova realidade: escurece. Depois a confissão do eu lírico que admite não ter desejo de buscar a luz. Por fim a aceitação conformada: se é vontade do dia findar, ele aceita a noite.

A aceitação de uma nova realidade que se mostra escura (talvez pela frustração das lutas sociais da fase anterior) vem acompanhada de uma atmosfera pessimista que se repetirá muitas vezes ao longo dos poemas deste livro.

 

Dicas para ler poemas de Claro Enigma

Faça sempre a leitura de poesia em duas etapas:

1. Análise formal do poema

Na primeira etapa, foque os aspectos formais do poema: formatação (estrofes), métrica (faça a escansão dos versos para ver se há regularidade), esquema de rimas e sentido das palavras desconhecidas.

2. Leitura compreensiva do poema

Na segunda etapa, faça leituras pacientes e repetidas associando com as informações de contexto histórico, estilo literário e estilo do autor em busca de uma compreensão mais objetiva do texto. Não hesite em consultar um dicionário.

Lembre-se: se está difícil para você, está difícil para todos. O seu esforço pode ser o diferencial para conquistar uma vaga na universidade. 💪

Observação importante: Um livro de poesia não tem enredo, nem narrador. A poesia é a expressão da subjetividade do artista (suas emoções e pensamentos). Portanto, tome cuidado: é um erro usar a expressão narrador quando se fala de poesia (gênero lírico). O correto é usar “eu lírico” ou poeta.

A seguir, veja uma videoaula da análise do soneto Fraga e Sombra de Claro Enigma. A aula segue as dicas para a análise acima.

Leia também: mais resumos de Literatura para o vestibularAs diferenças entre o Enem e o vestibular | Como fazer uma boa redação

“Professor, como ler poesia?”

Esta é a pergunta mais comum que um professor de literatura escuta ao longo da sua carreira. Principalmente dos alunos que estão se preparando para prestar vestibular. É claro que não existe uma fórmula para se ler poesia. A poesia, como arte que é, deve ser degustada com a alma, deve ser muito mais sentida que compreendida. Mas o vestibular não cobra a leitura da alma. O vestibular cobra a leitura objetiva e compreensiva do livro. E quando este livro é de poesia, este tipo de leitura fica potencialmente dificultado.

Nesse caso, torna-se necessário observar alguns passos básicos e imprescindíveis para chegar em uma leitura minimamente compreensiva de poesia. Conheça algumas dicas para ler poesia:

1. Tenha paciência e persistência

Parodiando João Cabral de Melo Neto, um poema lido uma única vez é um poema mal lido. Somente a releitura repetida várias vezes permitirá que, aos poucos, os sentidos intrínsecos dos versos, dos vocábulos, da estrutura formal e dos recursos linguísticos que compõem um poema possam ser captados pelo leitor.

2. Observe o contexto histórico da obra

A poesia e as outras artes são a recriação da realidade sociocultural do momento em que é produzida. Você nunca viu um poema de Camões falando sobre internet, certo? Camões falava do mundo que ele conhecia no século XVI, assim como Drummond vai falar da realidade física, social, cultural do século XX. Conhecer o contexto histórico no qual um livro foi escrito é fundamental para uma leitura compreensiva do mesmo.

3. Conheça as características de estilo e de época do autor

Cada época tem um conjunto de características artísticas a que chamamos de escola literária ou estilo de época. Da mesma forma, cada autor tem um conjunto de características estilísticas que personalizam sua obra. Ao ler um livro, em busca de uma leitura compreensiva, devemos estar sempre atentos para perceber estes sinais de estilo de época e do autor, que servirão tanto para responder uma eventual questão sobre isso quanto para ajudar a entender o texto lido.