A obra Mayombe, do escritor angolano Pepetela, é um dos livros que caem no vestibular da Fuvest em São Paulo, o vestibular para ingressar na USP (Universidade de São Paulo). Com presença confirmada no vestibular da Fuvest ao menos até 2019, esse romance é importância vital para que se abram novos olhares sobre parte do continente africano. A seguir, leia um resumo de Mayombe.

Os densos caminhos do Mayombe
“O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros”
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Contexto histórico

Conhecer Mayombe não é apenas mergulhar no literário. É mergulhar no histórico, no social, no humano (nada belo, por sinal). A história de um pequeno grupo de guerrilheiros que lutam pela independência de Angola diante de seu colonizador (Portugal) surge de forma desromantizada nesta narrativa.

A expectativa de que o autor nos mostre guerrilheiros única e exclusivamente comprometidos com o ideal da independência é quebrada. Afinal, antes de tudo, são humanos. Homens e mulheres que lutam por um ideal coletivo, mas também traem, choram, mentem. No romance, tudo ganha o peso do contexto da luta pela independência, o que torna as relações quase sempre tensas.

 

Semelhanças entre Mayombe e O Cortiço

A dificuldade de se locomover pelo Mayombe (nome de uma região de floresta densa, localizada na África Ocidental) dá o tom aventureiro do livro. De forma análoga à obra O cortiço, do autor naturalista Aluísio Azevedo, podemos analisar o Mayombe como uma espécie de protagonista, dando o tom das ações que ocorrem dentro de si.

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O autor e a guerrilha

Resumo de Mayombe

Pepetela, autor de Mayombe

O autor angolano Pepetela, pseudônimo para Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, tem relação direta com a escrita de Mayombe não apenas por ser seu autor. Os protagonistas da trama são membros do MPLA (Movimento Popular pela Libertação de Angola), grupo que de fato existiu e lutou em prol da independência do país diante de Portugal. Pepetela fez parte do MPLA, ou seja, escreve sobre uma realidade que conheceu de perto, de dentro.

A luta pela independência de Angola se estendeu de 1961 a 1974, tempo suficiente para que Pepetela reunisse inúmeras experiências de guerrilha. Essas experiências resultaram na escrita de uma série de romances, com destaque para Mayombe. Vale lembrar que Pepetela ganhou o Prêmio Camões com a publicação deste livro.

 

Estrutura da obra

O livro é dividido em cinco capítulos relativamente longos (1. A missão – 2. A base – 3. Ondina – 4. A surucucu – 5. A amoreira). No início da narrativa há a apresentação do pequeno grupo de guerrilheiros, formado por 14 membros, instalado no meio da floresta densa. Conhecer um pouco de cada personagem logo de início traz um ar de proximidade entre leitor e obra.

 

O foco narrativo

O processo de narração é responsável direto por essa aproximação. Há basicamente dois modelos de Foco narrativo: a maior parte do livro é narrada em 3ª pessoa, com um narrador onisciente e onipresente. Porém, há momentos em que os personagens assumem a fala em 1ª pessoa. A identificação desses momentos é fácil, pois eles sempre são iniciados da mesma forma:

Eu, o narrador, sou (nome do personagem)

Dentro da floresta do Mayombe, os guerrilheiros angolanos planejam uma série de ataques aos colonos portugueses ainda instalados no país africano. O Mayombe é descrito logo de cara:

“As árvores enormes, das quais pendiam cipós grossos como cabos, dançavam em sombras com os movimentos das chamas. Só o fumo podia libertar-se do Mayombe e subir, por entre as folhas e as lianas dispersando-se rapidamente do alto, como água precipitada por cascata estreita que se espalha num lago.”

 

Resumo do enredo e personagens

Todos os guerrilheiros são chamados por codinomes, que fazem alusão à função de cada um dentro do grupo. Merecem destaque os personagens Sem Medo (comandante), Comissário Político, Chefe das Operações, Teoria (professor), Lutamos, Milagre, Mundo Novo, André e Ondina (estes dois últimos surgem como exceção ao serem chamados pelo nome).

Teoria, por ser mestiço (filho de mãe angolana e pai português), é vítima de preconceito e desconfianças dentro do grupo. Pepetela utiliza este personagem para abordar uma questão delicada dentro do grupo. Mesmo que Teoria lute junto aos seus companheiros, sempre é alvo de críticas de caráter racial. Sua tarefa dentro do grupo era a de ensinar. Era um intelectual. Mas sentia um forte desejo de participar das operações de guerrilha. Só assim seria reconhecido. Sem Medo e o Comissário têm algumas divergências entre si. Discutem, desentendem-se. Mas têm uma grande amizade. Quando um membro do grupo (o Ingratidão) é flagrado por ter roubado um angolano que trabalhava para os portugueses, instala-se no ar uma discussão: o que fazer com ele? Prendê-lo? Matá-lo? Depois de muitas divergências por questões hierárquicas e tribais, decide-se prendê-lo por seis meses.

Uma série de importantes diálogos marca o segundo capítulo. É aqui que ficam claros os planos dos nossos guerrilheiros. André, que está fora da floresta, aparece como membro que deveria zelar pelos mantimentos do grupo que estava no meio do Mayombe, mas não cumpre sua tarefa. É um burocrata que finge não ver o que está acontecendo ao seu redor. Sua relação com o Comissário não é boa desde o início. Porém, tudo piora quando os membros do MPLA descobrem que André tem um caso com Ondina, grande amor do Comissário. Sem Medo tenta apaziguar os ânimos. Quando o Comissário pede para que Sem Medo o ajude a reconquistar Ondina, Sem Medo nega, o que abala a amizade deles. Posteriormente, Ondina e Sem Medo também se envolvem, o que faz Sem Medo rever algumas convicções pessoais.

O refúgio cômico do livro fica por conta do episódio em que Teoria, ao se banhar em um rio, se assusta com o que parecia ser uma cobra. Esse fato gera grande confusão e mobilização entre os guerrilheiros. Ao final da narrativa, há uma intensa batalha entre os membros do grupo e alguns colonos portugueses instalados na mata. Tudo observado pelo majestoso Mayombe. Depois de muitos tiros, morteiros e gritos o saldo é vitorioso para os guerrilheiros, mas não sem baixas. Sem Medo é atingido e morre nos braços do Comissário.

Livro FuvestFloresta de Mayombe. Imagem: Ministério do Ambiente de Angola

Análise da obra de Pepetela

Entre encontros e desencontros de ideias e ações, os nossos guerrilheiros são apresentados não como heróis, mas sim como pessoas comuns, cheias de falhas e conflitos pessoais. Pepetela desconstrói a imagem romantizada do MPLA. A partir de um olhar empírico, o autor critica ações que antes sequer eram mencionadas. Após o fim da luta pela independência de Angola, o poder no país passou a ser disputado por vários grupos, entre eles o MPLA. Durante a administração desde grupo, a publicação/circulação do livro foi proibida em Angola.

Mayombe surge como importante inovação na estrutura dos vestibulares atuais, visto que as Literaturas Africanas foram, por longo tempo, simplesmente ignoradas por leitores brasileiros. Juntamente com o autor moçambicano Mia Couto (autor de Terra Sonâmbula – Unicamp), Pepetela figura como expoente literário desse continente. Ler esta obra não apenas para o vestibular será, sem dúvida alguma, uma experiência densa e incrível.