Já há alguns anos no vestibular da Fuvest, o romance A cidade e as serras é representante da literatura portuguesa no vestibular. O processo de narração e a análise de espaço são os pontos altos desta narrativa. A seguir, veremos estas e outras análises acerca da obra, além do resumo.

A obra foi produzida pelo escritor português Eça de Queirós nos últimos anos do século 19, mas publicada somente no início do século 20 (1901). Com publicação póstuma, é não apenas o romance de encerramento da carreira do autor, mas também a obra que marca uma fase de reconciliação com a nação portuguesa por parte de Eça. Apesar do teor crítico, típico da Escola Literária à qual pertence, o Realismo, o livro desenvolve um tom mais ameno se comparado às outras obras do autor. 

 

Resumo do enredo de A cidade e as serras

O protagonista da narrativa é Jacinto, homem rico, inteligente, detentor de alta cultura. Mora no número 202 dos Campos Elísios, na Paris do início do século 20. Porém, apesar de ser este o personagem central, o enredo tem início com a apresentação da história de seus antepassados, que viviam em Portugal. Conta-se que o avô de Jacinto, de mesmo nome, era um declarado admirador de D. Miguel. Ele se muda para a França após a derrota dos miguelistas em solo português. O pai de Jacinto, também de mesmo nome, cresce em ambiente francês. Jacinto (o nosso protagonista), é francês de nascimento, mas a sua relação com Portugal é constante, uma vez que a sua fortuna é fruto da administração das terras da família, em Portugal.

O melhor amigo de Jacinto é José Fernandes. Conhecido como Zé Fernandes, é também o narrador da obra (logo mais abordaremos o processo narrativo). A amizade dos dois é entrecortada por uma longa ausência por parte de Zé Fernandes. Após retornar a Paris, reencontra o seu amigo em uma condição psicológica diferente. Jacinto sempre fora conhecido por ter tudo o que se podia desejar, tanto que Zé Fernandes o chamava de “o príncipe da grã ventura”. Jacinto chega a criar uma equação para demonstrar o seu apreço pela modernidade: SUMA CIÊNCIA X SUMA POTÊNCIA = SUMA FELICIDADE

Análise de A cidade e as serras

A alta tecnologia multiplicada à sua mais alta e feroz aplicação levaria, certamente, à real felicidade. Mas mesmo sendo um entusiasta dos avanços tecnológicos e tendo todas as comodidades da época a seu dispor, Jacinto parecia triste aos olhos do amigo. O que estaria provocando tal apatia? Grilo, o dedicado criado de Jacinto, tem a resposta: “Sua Excelência sofre de fartura”.

Após achegada de um telegrama vindo de Portugal, Jacinto é chamado para comparecer em terras lusitanas a fim de resolver questões associadas às suas terras. Zé Fernandes vê nisso uma oportunidade para que o amigo sentisse novos ares, tirasse, ao menos por uns dias, os pensamentos da grandiosa Paris. Jacinto concorda com a ida a Tormes, Portugal. Vão juntos passar uma breve temporada longe da cidade luz.

A chegada a Tormes é marcada por uma série de infortúnios. O príncipe da grã ventura tem suas malas extraviadas e não há lugar adequado para recebê-los. Porém, contra todas as expectativas do nosso narrador, os ares do campo parecem fazer bem a Jacinto, que começa a dar indícios de apreço pela simplicidade das serras. A mudança de espaço se associa diretamente à mudança de humor de jacinto, trazendo à tona a crítica de Eça de Queirós ao modelo exageradamente moderno e urbano das sociedades da época.

Quando Jacinto está quase habituado ao campo, passa a notar toda a miséria que ali persiste. Decide, então, fazer uso de sua condição financeira para “modernizar” Tormes, ajudando, assim, a vida dos que ali habitavam.

Por fim, um romance o liga definitivamente a Tormes. Após se apaixonar por Joaninha, prima de Zé Fernandes, Jacinto decide se casar e permanecer indefinidamente em Portugal. Sua decisão é a clara demonstração de que fora atingido não apenas pela mudança de espaço, mas também pela mudança de personalidade.  

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Foco narrativo e a questão do espaço

O foco narrativo de A cidade e as serras é bastante original e complexo. Zé Fernandes é narrador-personagem, ou seja, faz parte dos eventos narrados. Porém, apesar desta condição, ele não é protagonista. Todo o tempo Zé deixa claro ao leitor que o foco dos acontecimentos, o centro das atenções é o seu amigo, Jacinto. Também é importante notar que Zé Fernandes não é narrador onipresente, ou seja, ele é capaz de contar ao leitor apenas os fatos que estão ao seu alcance visual. Nos momentos em que ele não está na presença de Jacinto, o leitor também não sabe o que se passa com o príncipe.

O espaço é, sem dúvida, o elemento teórico mais importante do livro. Nenhuma mudança pessoal aconteceria sem os deslocamentos físicos. Desde o avô de Jacinto até o nosso príncipe, as mudanças de espaço favorecem o crescimento pessoal, a quebra de paradigmas, o questionamento em prol da resolução. De Portugal para a França e novamente para Portugal, cria-se um eixo marcado pela sedução da modernidade e pela importância tradição.

 

A cidade e as serras, Capitães da areia e a problemática urbana 🏠

Guardadas as devidas adequações históricas e geográficas, tanto A cidade e as serras quanto Capitães da areia abordam a questão dos problemas associados ao âmbito urbano e modernizado. Em ambas as obras fica claro que a ideia de modernização/civilização não representa garantia de vida ideal.  

Seja por conta das desigualdades inerentes a este ambiente, seja devido ao vazio existencial que a cidade pode trazer, Jorge Amado e Eça de Queirós parecem promover uma reflexão acerca desta ideia: a vida distante da modernidade é, de fato, tão ruim? O tom crítico de ambas as obras dá o tom da resposta. A metódica equação criada por Jacinto torna-se passível de questionamento nas duas narrativas.  

Eça de Queirós, escritor de A Cidade e as Serras

Eça de Queirós, escritor de A Cidade e as Serras

Contexto histórico e a importância da obra

Eça de Queirós tem uma obra bastante vasta. Tendo sido um dos principais representantes do realismo português, compôs uma série de narrativas dedicadas à crítica direta aos moldes da sociedade portuguesa do século 19.

O caráter ácido e objetivo de suas críticas gerou profundo mal estar entre aqueles que eram, costumeiramente, alvo dos julgamentos de Eça. Burguesia e Clero eram os mais criticados pelo escritor.

A obra de Eça de Queirós pode ser dividida em três momentos (fases). Na primeira fase, ele escreve de forma experimental. A crítica social já é perceptível, porém ainda rasa. Havia, nessa fase, forte influência da estética romântica. Já na segunda fase (auge do processo de crítica) o autor amadurece a sua escrita. É nesse período que ele ganha mais adeptos, mas também desafetos. Ocorre uma espécie de “rompimento” com a nação portuguesa. A terceira fase é marcada justamente pela reconciliação com Portugal. Com teor ainda crítico, mas claramente comedido, Eça de Queirós dá um tom afável à sua obra, expondo os problemas da sociedade lusitana, mas também exaltando suas qualidades.  A cidade e as serras faz parte da terceira fase do autor.

Após a publicação dos romances O crime do padre Amaro e O primo Basílio, Eça de Queirós passou a ser visto em Portugal como um autor polêmico. Tais polêmicas geraram profundo descontentamento por parte do autor. Nesse sentido, é possível notar que o tom da crítica nas duas obras citadas destoa do tom de A cidade e as serras. Porém, não basta apenas notar essa mudança. É importante saber o que a causou. Encerrar a carreira “brigado” com a sua própria nação não estava nos planos de Eça.

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Análise da obra dentro do Realismo

O Realismo tem como grande marca a crítica ácida e direta aos moldes da sociedade do século 19. Porém, por se tratar de uma obra pertencente à terceira fase de Eça de Queirós, A cidade e as serras promove uma análise bilateral da nação portuguesa deste período. Uma vez que Jacinto encontra a real felicidade em meio ao “campo modernizado”, pode-se concluir que o autor não estava propondo apenas que Portugal se modernizasse e saísse do marasmo político e econômico que o assolava.

Ao mesmo tempo em que Eça lança tal ideia nas mãos do leitor, também exalta a importância das tradições e da simplicidade. Numa mescla perfeita entre o moderno e a tradição, Eça de Queirós convida Portugal à manutenção do velho, porém com a percepção consciente da chegada do novo.    

Agora que você já leu as análises e o resumo de A Cidade e as Serras, confira também todas as análises de livros que caem na Fuvest e em outros vestibulares. Assista também a uma aula sobre Realismo grátis.

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